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31/07/2004 11:23
trouxe alguma cervejas para o quarto, tranquei a porta, os vidros. o som atravessa. bebo, dia de festa. sabia que não ia agüentar muito tempo falando aqui de coisa séeerias! não é pelo teor, nenhum! e as letras sempre vão dessssenhando algúm outro significáado. vou lendo e enxergañdo algum perfil de pessssôas, algumas sombras e quando volto na palavra para definir, sumiram! o_O dançam, e brincam de esconde esconde comigo. corro com os olhos para pagá-las. frush, foi tarde. qualquer outra visão foram oferendas dos deuses que riem e sabem do nosso nãumsaber. e de repende, 100 motivos que me dêem razões lógicas, eu sinto tristeza, ou desassssossssego, ou te[n]são. como se essas letras grudassem em minha pele e arrastassem uma paralisia. mas... não existem outras formas, nem um amor tranquilo nos braços do caos. hoje, talvez, quisesse o não-refúgio. enquanto um bebado recita poesias sobre a lua do lado de fora da janela. queria ter uma arma e ameaçar por todas as coisas machistas e estúpidas que tive de ouvir dele esta noite. o caos, o caos. eu o amo tanto. or louco, torto, oco de eco no infinito, abiiismo. beijar-lhe a boca, oca, nita, deitar, esejar, ozar. mas será que ele mora mesmo em outra cidade? undo. ofundo... aaassim, ssado, caso contigo, caos! nos encaramos todos os dias, você me desafia. eu rio e você maaar.
enviada por Donas das Perdições
15/05/2004 16:44
MALAS PRONTAS
Aqui, já não dá mais para morar. Estou de mudança. E deixo o recado pregado na porta do novo endereço. Espero ainda ter vossa presença e permanecer a mesma dona. Ofereço tudo o quanto que foi contado em homenagem a todos que inspiraram minha aventura. E foram muitas, coisas singelas, desprezíveis, excitantes. Foram uma palavras, um gesto, segredos... Muito do que não se disse, tudo que se imaginou.
Contos e devaneios. Quem nunca catou um papel no chão? Ou guardou um papel de bombom. Ou quis derramar todas suas certezas pelo chão, como as batatinhas da canção de tenra idade. Jogar o mundo pela janela do trigésimo sétimo andar. Quem, com as mãos, rasgou as fotos da sua última paixão ou, em cima da hora, quis agarrar todo o mundo com os braços e coração? Para quem esconde suas ansias, histórias, mentiras, desejos, o sentido em baixo do tapete da sala perde todo o gosto pela vida. Há quem mantenha numa caixa todas essas coisinhas significativas, mas perigosas. Numa estúpida mente. Para sempre. E és que sou eu... Donas dessas perdições.
enviada por Donas das Perdições
04/05/2004 14:36
Todos os dias me aparecem homens, mulheres, homo, naturalistas, velhos, maridos, malditos, filhas, adolescentes, cínicos, depressivos, doentes, perdidos, uma infinidade de pessoas mergulhando na perdição ou desesperadamente querendo entender como se arriscaram nesse caminho. Pergunta-se quem a levou, o que a levou, como se um dia tivessem pego o ônibus errado, o táxi errou o caminho, a dona aqui seqüestrou. E o que tenho a dizer? Que ninguém chegou no caminho da perdição por acaso, todos a procuram e procuram com olhares curiosos, desejosos. Não é destino, é uma escolha. Se arrepende e mesmo assim querem mais. Não sabem se seguem em frente ou voltam atrás.
enviada por Donas das Perdições
25/04/2004 16:13
DOIS ÍDOLOS SOB O OLHAR DA DONA
Na minha condição mulher, vou me sentar a mesa e pedir uma cerva e conversar coumamiga ou sentar só de calcinha na beira da cama, enquanto pinto as unhas de pura sedução (o nome do esmalte) e analiso os homens de minha vida. Sou capaz de diferenciar dois deles, na verdade, dois tipos de homens, não se sabe ao certo qual o mais miserável dos dois.
O primeiro seria o tipo Haller, nos conhecemos numa taberna, o som abafado e a meia luz o deixava cada vez mais velho dentro daquele terno. A sua perdição foram os litros de bom vinho que tomou. Pobrezinho. Vi quando se levantou e foi andar na chuva, ficou perturbado, depois dessa noite, quando jura para si ter visto um letreiro num muro com as seguintes palavras:
SÓ PARA RAROS.
SÓ PARA LOUCOS.
Vinha do teatro, junto com outros burgueses. Sim, Haller é o tipo burguês... solitário. Diria mais, o tipo intelectualóide que não aconteceu, nem aconteceria, porque apesar de ter se libertado em pensamentos e concepções, ele é incapaz de se libertar, de abandonar, a moral, as regras, a boa conduta, os elogios, a masturbação do seu raciocínio lógico ou não, o amor de uma mulher (e possuí-la), o conforto e a segurança dessa vida. Crer no positivismo urbano, mas se sente, extremamente, sufocado dentro da cidade. Sente nojo e, depois, uma grande compaixão pelos valores aprendidos desde a infância. A ordem, a limpeza, a obediência de uma infância burguesa. Deseja a morte e covardemente não se utiliza da força que tem para consumir de vez essa busca incessante pelo prazer que não encontra mais. Estranha essa beleza propagandeada aos quatro quanto, porque se tornou cego, um cego quando se sente perdido ainda tateia velhos valores, mas quando estar ciente deixa fluir de si tudo que redescobriu nessa lutar por possuir novamente a verdadeira vida que lhe foi tomada, surge o lobo. Haller é homem e animal, racional e instintivo, Haller precisa de libertar de si mesmo! Apenas isso e isso parece impossível. O que mais queria era tocar fogo em sua vida, enquanto vaga constantemente para não se sedentarizar e se ver necessitado dos outros e depois disso, mais uma vez, não ser compreendido & se não precisa ser compreendido, também não precisa de amigos. E a culpa é sempre dos outros, também é deles a salvação? Então, por que espera velho, Haller? Pelo quê espera?
Haller é acima de tudo um homem e no fundo luta para o encontro com seu lado selvagem, de negar o gozo que conhecemos, um homem que se entrega, não completamente, que não consegue se desgarrar.
Homem que descobre outro mundo, outra visão de mundo, mas é cativado por esses valores, essa segurança e conforto e não sabe (não sabe mais) reconstruir sua vida, não sabe mais criar, brincar, destruir.... Um homem que tem medo e isso foi a PIOR PRISSÃO que a civilização construiu.
O outro, no entanto, se chama Tyler. Melhor, Tyler é seu duplo. Para quem não consegue negar a si mesmo, nada como se proteger criando um outro. Eu o conheci quando ele apontava uma arma para sua própria cabeça. Ele foi incapaz de se manter vivo. Auto-destruição. Mas acima de tudo, uma demonstração do seu caos interno, da sua grande depressão. Por mais que ele, muitas vezes, não acredite nas suas próprias mentiras e ria de tudo isso e se perca de si mesmo, pelo menos, se adeqüa com as desculpas e saídas libertáris montadas pela civilização: Seja a psiquiatria, terapias em grupo para restituir o mal que a humanidade o fez, seja através da crença no bom emprego e no poder de consumir. Sabe que não se destrói o Caos e institui-se a Ordem, apenas se faz parte dele, não adianta almejar por algo que não existe. E os Homens de Poder, por mais que jurem combater esse "mal", sabem disso e precisam da existência do Caos e de sua estupidez para se afirmarem. Tanto Tyler como qualquer outro homem são Pessoas de Poder. A diferença entre eles e Tyler? Tyler sabe disso! Assim como o mais podre dos vermes sabe que por debaixo da beleza está a carniça. Somos vermes, comei e bebei desse lodo! E embriagado por essas palavras, Tyler, conspira. Tyler quer saber os limites dessa vida. Tanto criou, brincou e destruir, que não teve mais volta. Está lá ele, abaixo de entulhos, da cidade que eram pilares, que sustentava sua loucura, o palco do espetáculo real das verdade que aparecem como cicatrizes.
enviada por Donas das Perdições
25/04/2004 00:25
Monólogos sobre o TM
Procuro na lista de conhecido, alguém que teve coragem de dizer aquilo que não disse, não está na lista, nem em lugar algum, exatamente, lugar algum, onde fica? Quero saber. Quem o escondeu de mim? Viver procurando parece moda, coisa pop, mas que se dane o Papa! Vida e seu sentidos em jogo, não posso esquecer (anota na agenda). Essa necessidade, não só minha. Algo que perdemos. Ponha-se os óculos para perto, troca, óculos para longe. Uma necessidade, corrige-se: não um vício! E ter o que se necessita, não nos faz (ou não deveria fazer) ficar parados, satisfeitos (só nesse sistema onde fomos criados nos leva a crer na satisfação, o homem nunca está satisfeito!). É necessário, antes de tudo, e mesmo sem tudo, estar constantemente conscientes, isso é um estado (que muda a todo instante e é preciso correr atrás). Esse desejo de não sei o que dentro de mim, fará um dia acordar e ter a certeza que tudo foi uma grande tolice, mas a MAIOR E MELHOR TOLICE DE MINHA VIDA!!! E terá sido melhor que as tolices que nos são vendidas, doadas, empurradas a força.
Antecedentes: email para o Pyter.
enviada por Donas das Perdições
24/04/2004 14:18
Carta sobre uma perdição: A Moral
Até agora, foi sobre bem e mal que pior se meditou: foi sempre um asssunto perigoso demais. A consciência, a boa reputação, o inferno, em certas circuntâncias a própria polícia, não permitiam e não permitem nenhuma imparcialidade; em presença da moral, justamente, com em face de toda autoridade, não se deve pensar, e muito menos falar: aqui se obedece! Desde que há mundo, nenhuma autoridade ainda teve boa vontade para se deixar como objeto de crítica; e criticar logo a moral, tomar a moral como problema, como problemática: como? isso não era - isso não é - imoral. Mas a moral não tem somente autoridade sobre toda a espécie de meio de intimidação, para manter mãos críticas e instrumentos de suplício afastados de seu corpo; sua segurança está ainda mais em uma certa arte de enfeitiçamento, de que ela entende - ela sabe "entusiasmar". Ela consegue, muitas vezes, com um único olhar, paralizar a vontade crítica, até mesmo atraí-la para o seu lado, e aliás há casos em que sabe fazê-la voltar-se contra si mesma, de tal modo que a vontade então, igual aos escorpião, ferra em seu próprio corpo o ferrão. A moral entende, justamente, desde antigüidades, de todo diabolismo e arte dde persuasão, não há nenhum orador, ainda hoje, que não buscasse seu auxílio. A moral, desde que sobre a terra se fala e se persuade, se demonstrou como a mestra, máxima da sedução - e, quando a nós filósofos, propriamente como a Circe dos filósofos.
Nietzsche
enviada por Donas das Perdições
22/04/2004 14:12
Historinha da infância - série importada dos Putos Vadios
Quando a Puta que Pariu era mais nova, ainda criança, ela teve um amiguinho, um amigo que não sorria, não falava, - nenhum elogio, nem alguma palavra de apoio - sua moral se definia pela sua rigidez, tinha os olhos profundo que perseguiam-na o dia inteiro (se fosse possível), tinha tara por ela (e como puta adorava isso!), mas não podia ir muito longe. Era um boneco de chumbo que ela roubou do irmão antes de empurrá-lo rua abaixo. A queda não o fez quebrar nada, ele só nunca mais voltou.
Uma vez, seu pai bêbado, buscando carícias no pescoço da filha, enquanto ela brincava com o chumbinho e suas bonecas de macumba, zangou-se ao vê-la tão distaída. Ameaçou o boneco de morte pela janela da cozinha que dava para um terreno baldio. Putinha gelou os olhos em lágrimas e não podendo mais fugir das mãos do pai arredio, meteu o amigo dentro de si que só veio sair três meses depois, com a menstruação.
enviada por Donas das Perdições
08/04/2004 10:31
Acordou no ônibus, acordou na noite, acordou, por que choras, menininha? Era ela, era Alice? Quem me chamas pelo nome? As lágrimas desciam feito enxurrada, derrubando paredes, carregando pensamentos, outros olhos as procurava sem encontrar. Uma moça embebecida por seus próprios mistérios indesvendáveis de estimação, que de uma hora para outra eram abandonados em troca do viver, apenas. Mister entre felicidade excitante, perda e solidão. Tão simples. Chora, mas onde estão as lágrimas? Onde você as escondeu? Aqui dentro, afastava a gola da blusa. Os seios pequenos e inocentes estava secos, não choravam. Donde vem esse som? De um sonho. Acorda! Estava presa nas lágrimas eternas que não conseguia explodir fora de si. Ficavam guardadas e só quem chegava perto de seus sonhos poderia ouvir. E quem caminhava indisplicentemente pelos corredores de seu castelo a ouvir a pobre criança presa numa das milhares de portas pesadas dos quartos que escondiam um passado? Quem, no apagar da tarde, na invasão das sombras, no inconsciente da noite, a convidava a buscar por si mesma. Em ecos, por que choras? Por que choras? Eu não sei, eu não sou. Poderia ouvir, mas era inexplicável. Abriu os olhos, tocou seu rosto, não chovia. Acordou, afastou o outro sonolento e assustado do seu colo. Sorriram imensamente. Com o dedo na boca pediu segredo para o que acabou de se descobrir.
Alice estava de volta.
enviada por Donas das Perdições
04/04/2004 01:56
A garota pedia esmola ao meio dia, e a meia noite subia no ônibus, pela porta de aleijados, joelho por joelho. Eram poucas as moedas e entristecia sua face o suor. O rapaz afastava para dar espaço a moça incompleta e observava desajeitado, como se ninguém percebesse o enrubescer, aquele outro corpo que faltava pedaços era todo prazer, sem pernas, rastejando pelo chão, uma mulher alejada pelo amor. Sem pernas, sem pernas - amputadas durante a noite - sussurava. Queria tê-la nos braços, pegá-la de costas, senti-la aos seus pés. Como todo homem quer uma mulher.
enviada por Donas das Perdições
01/04/2004 13:59
Beijava-lhe a mão, perguntando se ela sabia. Sabia o quê? Não, nada. O quê!? As mãos, as mãos de uma mulher. Mulher? Perguntava-se aonde. Talvez fosse ela, é, era ela. São delicadas. A dor do abandono de horas antes refletia-se naqueles pensamentos vazios. Dizem que... Estava um lixo, abatida. Dizem que tocar as mãos de uma mulher é como tocar suas... Esquecera seu corpo, onde ficavam os olhos ou os seios não faziam a menor diferença. Não sabia mais dos suspiros, nem dos desejos incuráveis, nem do calor dele entre suas... pernas. É o que dizem e seus dedos deslizavam sobre os dela, delicadamente, como numa cerimônia. Não podia deixar de acreditar no que ouviu, mas nem pretendia. Estava hipnotizada. Sua sensibilidade estava agora nas mãos, que limpa, varre, escreve, corta, segura, puxa, aperta, arranha, delicadamente. Nunca as imaginou como um símbolo. Acariciá-las. Beijá-las. Delicadamente. Dizem que tocar as mãos de uma mulher é o mesmo que tocar em suas pernas, elas sentem o mesmo prazer, esses dois dedinhos, os pezinhos, a batata, as cochas. Abriu espaço entre os dois dedos e lá passou a língua. Suspiro. Um desejo e o calor entre seus dedos.
enviada por Donas das Perdições
18/03/2004 21:58
Ele disse: três netos. Uma nora montada num salto alto e uma filha numa merda de casamento. O marido está sem emprego e os meninos numa creche. Todo domingo tem shopping e dívidas no cartão de crédito. Mas não tería como evitar, filhos também têm de sofrer e fazer tudo outra vez, mais uma vez, errado. Escolher errado, sonhar errado, ideologias, utopias e festas de aniversário. Àquele pai, só caberia assisti-los presos nos mesmos labirintos, o do poder e o do querer, quando, enfim, não são mais crianças. Ele sabia dos enganos, mas se sentou naquela tarde ao meu lado. Pediu licença e se sentou na cadeira faga de um ônibus vazio. Esperou o sinal abrir para deixar correr suas falas abandonadas em saudade. Era como se pescasse na lembrança. Tempos de glória, breve ilusão, caminho que não segue adiante, apenas se enrola, se enrola, se enrola. Veterinária, reitor corrupto, faculdade, estorção do prefeito de uma pequena cidade que trabalhou. Não se pode aceitar. Dignidade. Parece que fecharam o cruzamento, ou alguém parou. E vendo-me ali, vestida de menina, não seria capaz de fazer-me nenhum mal. Daria um doce, e no outro dia, daria outro, e outro, só para que no seguinte eu pudesse voltar e assim não se sentiria sozinho. Mas eu vou descer na próxima. Criamos eles bem. É verdade. Tenho que descer. Tinha um nome de Mar... Prazer. Nós beijamos.
E logo na esquina, o jovem rapaz me esperava com olhos sedentos de mim e felizes. Foi quando me lembrei que no beijo eu vi a oferenda que o velho me fez. Banhar-me naquele mar, mergulha em sua plenitude, que não sorria à toa, pois sabia dos enganos da vida. Olhei para trás.
Noutro dia, procurei dois assentos vagos e esperei que ele aparecesse inesperadamente de novo. Haviam mais pessoas e o percurso era o mesmo. Procurei-o entre os outros. E só ao ver no espelho o encontrei. Estava sentado ao lado de uma mocinha inquieta, ele mudo e duvidoso. As duas mãos seguravam o outro encosto como se quisesse levantar. Mas não. Quando nossos olhos se cruzaram, tudo parou, menos nossos pensamentos. Um convite negado. Ele não veria mais até mim, essa era sua vida e estava certo que não queria mais andar pelos meus caminhos. Deixará-se perder tantas coisas, entre elas o próprio amor a sua família, mas ela, a esposa, sempre o estaria esperando com uma xícara de chá para o fígado. Todos esse anos já bastaram. E nesse dia, nem eu nem ele, não perdemos nada. Só quem não quis ganhar perdendo.
enviada por Donas das Perdições
17/03/2004 20:06
Ele era mil
Tu és nenhum
Na guerra és vil
Na cama és mocho
Tira as mãos de mim
Põe as mãos em mim
E vê se o fogo dele
Guardado em mim
Te incendeia um pouco
Éramos nós
Estreitos nós
Enquanto tu
És laço frouxo
Tira as mãos de mim
Põe as mãos em mim
E vê se a febre dele
Guardada em mim
Te contagia um pouco
enviada por Donas das Perdições
13/03/2004 20:28
Sempre me acostumei ser mulher nos outros.
Um dia encontrei três dedos perdidos no meio de minhas pernas. Eles roçavam freneticamente e num ato sádico disseram-me, você não é mais menina. Doeu-me e eles gozaram.
Todos as pessoas pareciam saber do ocorrido, que eu, um dia, me acordei mulher e cada olhar trazia um julgamente e um desejo. Invasão da qual não poderia me defender. Era um fado. Inquietava-me o cair da noite e o peso de crescer fazia-me chorar em porques e perdões sem respostas. Virgem Maria vestida de sangue permanecia calada, mas seu retrato na parede do quarto não me enganava. Por debaixo daquele manto vivia alguém chateada com deus. Se deitar com o universo inteiro para dar vida ao salvador. Descobrir-me mulher fez-me duvidar de todos os homens. Eu já não era mais bem-vinda no reino do senhor, pois o tempo de criança simplesmente fugiu. Tudo em mim recriava o pecado original do qual não obtive redenção. Entreguei-me e fiz parceria com a inocência e o seu prazer. E vendo-me desnuda de atrações do sexo uma concubina misericordiosa adotou-me como filha, vestindo-me de sedução e luar. Olhos que sinalizavam ao espetáculo em roteiro de elogios e mentiras. Enchiam-me de amor incontido como se amasse pela última vez. Via-os deitarem-se em mim. E ali um ciclo se fechava, a missão se cumpria. Ser para o que vim ao mundo. E com a força de algo que acaba de nascer, tudo pareceu-me possível. Juventude, toda a fé e os medos esquecidos. Se sei do meu corpo é através das mãos dos homens, se sei da meu encanto, hoje apagado, é através das palavras dos homens, se sei do filho que saiu de mim, é através da fecundação dos homens, se sei das ofenças que ouvi, é pela moral dos homens. Sinto-me no mundo de fora para dentro, pelo que me contaram ou me levaram a viver. O que me faz mulher, me faz nos outros. Até os maldizeres, foi uma luta vã de ainda manter em meu seio a mão que me possui. E agora... estou desfigurada. Ser assexuado. Ele desligou as luzes e apenas disse que iria dormir.
enviada por Donas das Perdições
08/03/2004 00:53
Viajo sobre trilhos e parece que faço isso sozinha com meus pensamentos...
...apesar dos tantos outros passageiros, que não me demoro a encarar e fitar-lhes os olhos para distrair-me. Contra a repetição da paisagem na estrada, contra a insistência da culpa e da fragilidade. Busco os sapatos e a poeira de suas cidades, encruzilhadas, atalhos. E agora, levados a um caminho só. Algo ficou. Algo que alguém esqueceu, perdeu ou guardou. A cada, um orgulho recolhido, confundido com inteligência, força, perspicácia. Sigo por esses trilhos cansada. O som rígido me atropela. Malinha de mão e todo o resto diluído pelo espaço que vasculho na tarde amarela. Na estação de trem, vou descer, passar e seguir, com o mesmo ar arrogante e esbelto que me protege. E nesta hora, um rapaz com o seu chapéu erguido no chão tocará uma música sem beleza, mas, no entanto, franca, forte e juvenil. Tocará suas perdições e muitos lhe darão moedas por isso. Eu apenas passarei sem me importar. Então, essa música entrará em mim de forma muda, sem conselhos para julgá-la, sem força para corromper-me, sem pudor para conter-nos. Será como se transasse os meus com os seus pensamentos. Nascerão filhos desses amor inlegítimo e junto com aquelas notas, na frieza dos seus sentimentos, meus pensamentos irão dançar e se perder. Nem sequer perceberei o que fizemos nós dois. O que fizemos? O amor mais belo e verdadeiro de minha vida. Estou desgastada, descrente. Gostaria de chegar ao meu lugar, mas onde? Procuro. A cama de motel e a luz no espelho. A noite, ao deitar, me sentirei tocada sem saber por quem foi.
enviada por Donas das Perdições
08/03/2004 00:15
se um maratonista apaixonado e bobo cruzasse o seu percurso com meus passos lerdos e cabisbaixo e me dissesse: corra atrás do seu amor. eu o veria surmir no horizonte, ainda atordoada. perguntaria-me que tipo de ameaça quis ele me fazer. assim como eu, o meu amor é inerte, nascemos juntos, unidos, filhos do mesmo grito...
enviada por Donas das Perdições
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